segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O Mar e os meus Filhos

Imaginei um dia que os meus filhos
fossem o espelho do Mar…
Imensos nos sentimento, profundos nas convicções,
bravios na honestidade e mansos nos afectos!
Os Deuses quiseram que vivesse o suficiente para me orgulhar,
de que a imaginação é muitas vezes pronuncio da realidade!
Peço-vos que gritem ao mundo esta homenagem sentida,
em vida e pela vida destes que vos falo, meus filhos, meus tesouros!
Poderei morrer amanhã, ou hoje, ou já estar morto e se assim for,
espalhem-me por esse mar…
Fundir-me-ei com as profundezas, nesta singela forma de Amor!

2009

Cinzas...

Há desencantos que nos deixam atormentados
O mar, até há pouco companheiro, ombro amigo em que depositava lágrimas sentidas,
em que imaginava almas partidas que me acalmavam a loucura
abandonou-me na praia como se expurga-se um pedaço de areia
Pergunto-me, porquê?
Será que o mar é apenas água e a areia espólio de conquista?
Serão as vagas apenas fruto do vento que passa?
Será o imenso azul apenas um reflexo do céu?
Este sentimento que me esmaga o peito e esfarrapa o coração,
esta mordaça que me faz calar um grito de dor
por ser traído naquilo que temos de mais nobre, o acreditar
é talvez o fim de uma paixão.
Doravante o mar, será apenas mar.

2009

Mar de sonhos

Por fim, o mar.
Parecem dizer as dunas que baloiçam com o temporal
Dizem também as escarpas que se erguem do azul
E digo eu; filho de montanhas cobertas de nada,
servo dos ecos que me roubam a voz e repetem que o mar,
qual fonte de eternidade,
é o acumular dos sonhos de homens de bem, desfeitos em agua.
Tempos virão em que este mar,
se revoltará para além do pensar
Que seja, se cedo for.

2009

Estória de encantar

Era uma vez uma criança que nasceu do mar
Olhos claros e pele morena
confundia-se com o espraiar da onda
Olhou para mim com a ternura que só as crianças sabem olhar e perguntou
Vais pescar muitos peixes?! Gostas do mar?!
Hesitei em responder e respondi a perguntar
O que fazes aqui?! Também gostas do mar?!
Eu sou o mar, respondeu!
Sou a calma que sentes e os arrepios que te invadem pelo contemplar!
Sou o cheiro a maresia e a gaivota que te sobrevoa a planar!
Sou o branco da espuma e a areia doirada que te tocam os pés e te fazem sonhar!
Sou o negrume da tempestade e a onda gigante que te faz recear!
Sou o baloiçar da vaga e a imensidão ao teu olhar!
Sou o Deus maior que te faz acreditar, no reencarnar das almas que amarás para além do viver!
E agora, já me podes responder?! O meu pai diz que és pescador…
Surpreendido, pensei.
Será que estou a delirar?! A loucura já invadiu o que me restava de bom senso?!
É a criança que fala ou a minha imaginação por ela?!
Continuava perante mim em sinal de desafio…
Balbuciei; pois…sabes… sou pescador…talvez um peixe ou talvez nada!
Mas gosto muito do mar!
Sorriu e correu pela praia a gritar…pai, pai, o senhor não sabe pescar!

2008

Mar de fantasia…

Ontem, mascarei-me de pescador!
Mochila às costas, botas de cano alto e panamá
varas na mesma mão do balde cheio de fé
deixei a imaginação viajar pelos regueiros da maré
No primeiro, encontrei outros mascarados, não sei bem de quê!
Talvez de leigos?!
Varas que mais pareciam jactos, artefactos com que eu nunca sonhei, porém…
iscavam presunção!
Noutro regueiro, material modesto,
iscavam-se promessas de peixe graúdo nos intervalos de um cigarro
Afastados, dois mascarados insultavam-se não percebi porquê!
Ouvia gritos…o regueiro é meu, o regueiro é meu…
As máscaras eram de fel …
Ao meu lado, olhos postos em mim, um homem perguntava
Vossemecê mascarou-se porquê?!
A pergunta surpreendeu-me e balbuciei
Temos que acompanhar as máscaras do tempo, Companheiro!
E o amigo não se mascara?!
Não, não me sobeja fortuna para ser o que não sou!

2008

Mar de morte…

Sempre que o mar trás a morte
crescem em desassossego as vagas
alimentadas pelo choro das viúvas de negro trajadas
suspiram pelos cantos os eternos servos do desalento
Infelizes os que chamam à morte exemplo…
Infelizes os que não enxergam para além do firmamento
Exemplo, é chorar a morte dos que partem
é chorar a morte dos que, embora vivos, já morreram…
Olhei os destroços que se abeiravam daquela praia
e contive as palavras por instinto
Ao meu lado, um rapazola de olhar profundo e rosto manchado de maresia,
olhava o horizonte como se ele fosse fonte de vida
Chorava compulsivamente sem soluçar
serrava os punhos como se socasse o infortúnio
e engolia a esperança de voltar a sorrir
Ao longe, a noite anunciava o inicio da tragédia

2008

Madrugada

A madrugada aproximava-se sorrateira
e trazia com ela a fadiga das horas passadas…
Os olhos lacrimejavam, as mãos adormeciam, as pernas lembravam-me mazelas antigas
Olhei o relógio…os ponteiros indicavam-me o regresso a casa
Hesitei…esperava que a maré que até então me trouxera paz
me trouxesse também, quem sabe, um troféu dessa jornada…
Caminhei na areia, voltei a olhar o relógio e acendi o último cigarro
Não, não vou ainda…fico mais um pedaço
Á minha volta, todos tinham partido sem uma palavra ou aceno
o que me fez recordar que os Homens comparados com o Mar
são apenas Homens, enquanto o Mar, é uma dádiva do Universo
A maré teimava em não me surpreender,
o cansaço apoderava-se do corpo como a neblina que envolve a serra de mansinho
Arrumei a mochila e subi a arriba
Esperavam-me dezenas de quilómetros de viagem, outros tantos perigos espreitavam na penumbra
Lembro-me de ter sonhado…
Recordo que no sonho se entoava um hino à vida e a um canto de uma sala sombria,
muitos rostos choravam…
Confuso perguntei… O que se passa?! Porquê tristeza?! Não tive resposta
Acordei em sobressalto…
O que antes fora cansaço era agora um arrepio de alívio
Ajeitei-me no assento e passei as mãos nos olhos como se limpasse um mau momento
O Sol, envergonhado, nascia á minha frente e…fiz-me á estrada
O que se passou esta noite para chegares tão tarde?!
Não sei, talvez uma demonstração de amor das almas que me acompanham!

2007

Noite de sonho…

Viajei, como de costume, ao anoitecer
na esperança que aqueles momentos me soubessem a anos
e me limpassem a alma do azedume
que meia dúzia de dias passados, teimaram em fazer crescer
Mochila ás costas, varas na mão como espadas
que haviam de matar a presunção
de ser eu e só eu o malfadado do destino
A noite prometia paz…o mar nada dizia
Lancei o engenho com a convicção de que me cada lançamento
um farrapo de amargura se desvanecesse na maresia…
Fixei os olhos na luz que acrescentei ao céu á espera que se transformasse em cometa
e… aconteceu!
Corri como se o mundo acabasse
O carreto gritava como se o chão lhe faltasse
A vara, antes firme, vergava na noite como se o mundo desabasse
e…fez-se dia
Quem me dera que os Homens que sonham, se façam à estrada!

2007

Quem disse que o mar é azul?!

Perguntei às areias brancas, salpicadas pelo medo dessa água imensa que as leva e traz, como multidões angustiadas de Homens a quem roubaram o destino.
Responderam…se alguém vê o mar como azul, olhe para o céu e descubra os cinzentos deste mundo que é preciso estancar, antes que se fundam na hipocrisia dos Homens e aumentem a torrente de ódio, daqueles a quem não é permitido distinguir as cores da nossa existência…
E partiram com uma promessa. Voltaremos todos os dias para te lembrar…

2007

As janelas do mar…

O mar tem muitas janelas…
Abertas, fechadas, com molhos de flores penduradas, com portadas, sem elas, mas…
há uma janela que abro em particular; a janela dos fundos…
Aquela janela em que vemos quem somos, o que fazemos.
Abri essa janela na última sexta-feira já noite e o que vi?
Vi Homens para alem da fronteira que é o mar, que erguem as mãos ao céu
e pedem ajuda divina, quando muitos dos Homens das outras janelas os podem ajudar…
Continuam à espera… sempre que vou a essa janela.

2007

O fascínio pelo mar…

Nascido entre serras,
que me tornaram rude nos traços e livre no pensamento,
só muito tarde conheci o mar…
Pergunto-me todos os dias, o porquê desta paixão exacerbada
quando o mais parecido que com ele tinha
era o amor pela terra agreste e pelos encantos daquela vida
Não me lembro o que senti quando conheci o mar…
Não me lembro onde, nem qual era a cor…
Não me lembro quem me levou a conhece-lo,
embora desconfie,
que foram os pedaços de mim que já partiram
e me deixaram em retalhos feitos de tristeza e revolta
Talvez por isso o fascínio pelo mar
Talvez a mente transforme de forma subtil
os pedaços que foram… em azul
Talvez o mar seja enfim,
a reencarnação das almas que continuo a amar!

2007

Quando o mar é sustento…

Há gente que vive do mar.
Dito assim, faz-nos pensar que o mar
é alimento que nos sacia a fome e nos aquece a alma
como se de pão e amor se tratasse
Faz-nos também julgar, sem pensar,
que o amor é eterno e o pão se multiplica com um simples olhar
Puro engano… não do mar,
mas de todos nós que vemos o futuro
com olhos cegos de apenas…acreditar
O mal não está em ser crente [seja qual crença for]
Crente em Deus, nos Homens, no Amor…
O mal está em fazer da crença a única arma para “lutar”
Então e a palavra; e as mãos; e o fazer?!
Não serão estas armas que nos permitirão dizer um dia
O mar é sustento e por muitos anos continuará a ser!

2007

Terra sem Mar…

Enquanto olhava de soslaio a ponteira de uma paixão
imaginei o Planeta sem o Mar…
Um arrepio varreu-me a alma,
secou-me a boca como se só por imaginar
alguém fosse capaz de me ler o pensamento
e me privasse dos amores que me fazem viver
Ao meu lado, um Companheiro de ocasião, deixou escapar…
“Ele há Homens para tudo”
Não falava do mar…mas,
de novo um arrepio e a boca a secar
E se um dia os Homens que nos oprimem
nos inventam e reinventam ao seu belo prazer
agarram no meu pensamento e o transformam em bandeira
como outras bandeiras que erguem no falar e no fazer
Fiz um esforço…queria deixar de pensar…
Será o pensamento um prenuncio do que está para vir?
Por favor, não imaginem a Terra sem Mar.

2007

O mar da Arrábida….

Esse mar que nasce no sopé da montanha
silencioso que se confunde com o calar da noite
segreda ao meu ouvido que das arribas que o abraçam
sangram chagas feitas por betão e aço
É necessário ferir por amor, dizem uns…
Quem ama não agride, dizem outros…
Ninguém olhou o rosto dessa Serra de lamentos
e percebeu que as pedras que por ela rolam
são lágrimas cristalizadas por anos de tormentos
Bem perto as manchas de civilização
relembram à Serra o seu destino
erguem no ar os seus pedaços

2007

O mar da Zambujeira

Da janela que abri no alto da falésia
no final da subida que pensei me levava ao céu
senti a brisa ondulada desse mar
a entranhar-se na pele como se o universo fosse eu…
Ao longe, Homens brotavam das pedras e lançavam-se ao mar de regresso a casa,
como aves saciadas rumando ao Sul
Ás costas traziam frutos… na alma pedaços de maresia que devolvem nos afectos
Fechei a janela… guardarei para sempre na memória, esses retalhos de mar azul

2007

O mar mais uma vez…

A fronteira entre o bem e o mal é tão ténue, que arrepia as escarpas que se erguem perante nós.
O mar [o tal que não é mar] é apenas essa fronteira, sem espaço para ser gigante e medonho.
Falei-lhe da vida… respondeu-me em lágrimas de agua e sal, tão farto de ser apenas observador privilegiado deste mundo azul, tão negro de ódio e de marés de cheias de gente moribunda, em busca do caminho que as leve ao outro lado…

2007